uma banda viajante na pandemia


As novas fronteiras na estrada sem fim da Čao Laru


Em janeiro deste ano, depois de três meses de férias, a Čao Laru se enfurnou num sítio em Ibiúna (SP). Noubar, Nicolle, Pedro, Joel, Léa e Fábio pasaram 25 dias ensaiando e formatando o que seria “LIBRE”, o novo disco e a nova turnê da banda, cujo lançamento estava previsto para o segundo semestre. De lá saíram com 12 canções – gravadas em São Paulo, no estúdio Submarino Fantástico – e caíram na estrada para as últimas apresentações com base no álbum anterior, “Fronteiras”. A agenda tinha shows marcados no Brasil, na Argentina, Uruguai e na Europa. Com a grana dessas apresentações, o grupo pagaria os custos do disco e suas próprias contas também.

Mas em março veio a pandemia, e tudo mudou para todo mundo, até mesmo para uma das bandas mais testadas em desvio de obstáculos, a banda que termina seus shows cantando “nem a maior fronteira que cruzamos nos inibiu”.

Essencialmente um grupo viajante, a ponto de ter a sua própria Kombi (para rodar o Brasil e a América Latina) e motorhome (para as apresentações na Europa), a Čao Laru se viu pela primeira vez sem poder circular, e portanto, sem sua maior fonte de renda. O grupo já tinha adiantar o crowdfunding previsto para financiar o álbum, mas como pedir dinheiro num momento que há tantas pessoas precisando de recursos também, muitas vezes em situações dramáticas? A segunda questão: o disco LIBRE estava pronto. Deveriam manter o plano e divulgá-lo, mesmo com a crise da pandemia, ou deveriam esperar?

Os dias mostrariam que a barreira invisível do COVID-19 suspenderia a jornada mundo afora do grupo, mas não seria capaz de brecar a sua criatividade ou a sua crença na música como uma arma para lutar. Adaptar-se, afinal, é também um jeito de ser livre.

Conversei com o baixista Destro sobre a forma que a banda encontrou de pedir ajuda e, ao mesmo tempo, fornecer ajuda e a decisão de lançar LIBRE antes da hora planejada – ele chega às plataformas digitais neste domingo, 31, pelo Pequeno Imprevisto. Aqui estão alguns trechos:

Que momento vivia a Cao Laru antes da pandemia do coronavírus? Quais eram os planos da banda? 

Destro: Depois de três meses longe dos palcos, estávamos no meio da turnê de despedida do disco Fronteiras no sudeste e sul do Brasil, que começou em fevereiro e iria até o meio de abril. Novembro/dezembro do ano passado foi tanto um período de descanso das viagens, como um período de muito trabalho de planejamento e produção de todo o ano de 2020. E em janeiro, nos reencontramos em Ibiúna/SP para 3 semanas de imersão onde compomos o disco LIBRE, além de mais 10 dias de estúdio para as gravações em São Paulo/SP.

Vocês decidiram seguir em frente com a ideia de criar um financiamento coletivo para o novo disco, LIBRE, mesmo em meio a um cenário complexo. Como vocês chegaram nessa conclusão?

Não foi simples chegar a essa conclusão. Depois que entendemos um pouco melhor o cenário, a princípio questionamos se era o caso de realmente fazer uma campanha de financiamento agora. Apesar de estarmos no mesmo barco de uma classe artística que se prejudicou muito com turnês e temporadas canceladas, projetos congelados por tempo indeterminado, etc, temos consciência da nossa posição nessa sociedade tão desigual, e diante desse (des)governo que está posto, sabemos que são as pessoas mais vulneráveis que mais sofrerão com a crise e que no final pagarão a conta. Ou seja, não somos quem mais precisa de ajuda agora.

Mas outras questões também pesavam o outro lado da balança. Com um planejamento que contempla tantas decisões e ações, e que começou lá em setembro do ano passado, já tínhamos feito um financiamento coletivo na Europa, e dessa forma, já nos comprometemos a entregar CDs, vinis e camisetas do LIBRE por lá. Soma-se a isso as contas a pagar referentes à própria gravação do disco, sempre tendo em vista que basicamente a única fonte de renda da banda são os shows, através dos cachês e das vendas de merchans. Isso paga os músicos, a produção, a assessoria de mídias e de imprensa, a manutenção da kombi, a elaboração de clipes e materiais, a gasolina, a produção dos merchans…


Além de tudo isso, ficou claro desde o início desse período de isolamento, a necessidade que temos, como sociedade, de nos alimentarmos de arte. Impressionante o que os artistas tem feito pelas redes sociais, como a produção tem sido criativa, desenfreada e curativa. E como inclusive tem crescido o reconhecimento da importância da arte em nossas vidas. Como artistas, com nosso trabalho e nossas produções em mãos, entendemos que qualquer esforço para acrescentar mais novidades como opções para quem está em casa seria bem vindo.

Dessa forma, escolhemos sim, fazer o financiamento coletivo, tentando contextualizá-lo com algumas ações: através de uma renegociação do orçamento, conseguimos fazer com que cerca de 20% do valor arrecadado seja repassado para outras campanhas que procuram ajudar pessoas mais vulneráveis por conta do Covid-19; incluímos cotas de shows que serão executados em asilos, APAEs e escolas públicas, além da compra de produtos da banda que serão doados nesses locais; também é possível comprar pares de ingressos que serão destinados a pessoas de baixa renda para que assistam ao show da banda em teatros e casas de show; e também repensamos a data de lançamento do disco para que ele estivesse nas redes o mais breve possível.

Estamos há muitas semanas quarentenados. Como você tem visto esse momento, tanto como músico/artista, quanto como cidadão?

A quarentena é necessária. Entendo esse isolamento anterior à explosão do vírus no país, como uma medida de prevenção. O grande lance é que não estamos acostumados a lidar com saúde de uma maneira preventiva. Nos acostumamos a ter uma vida pouco saudável em vários aspectos (a começar pela alimentação e pelo psicológico, passando pelo sono, água, exercícios físicos) e depois vamos remediando os problemas que aparecem. Acho que em paralelo à política desumana, genocida e fascista que nos desgoverna atualmente, a gente tem que lidar também com essa difícil quebra de costume de como a gente cuida da nossa saúde.

Essa pode ser a parte boa dessa crise: pensar em mudanças de costume. Acredito que pode ser um bom momento para repensar nossas relações: passando tanto tempo em casa, fica mais inevitável lidar com a sujeira que a gente joga pra de baixo do tapete. Também acredito que pode ser uma oportunidade de repensar esse sistema (quem vai destruir o vírus do sistema?). Reforçar a valorização e importância dos profissionais da ciência e da saúde, mas ao mesmo tempo, passar a valorizar tanto quanto esses profissionais, os garis, os caminhoneiros, os caixas do supermercado, e todos os incontáveis profissionais que continuam trabalhando, correndo riscos, para que a gente possa ficar em casa. Isso também contempla, em outra medida, a valorização de toda a classe artística, que mesmo dentro de casa, tem trabalhado desenfreadamente e nutrido a rede de tanta arte pra ser consumida e manter a saúde mental de todos.

Lógico que, pensar em uma “parte boa” da crise é sempre através de um lugar privilegiado, já que, mesmo com tantas incertezas quanto à perspectiva do meu trabalho como músico e da projeção e organização do trabalho da banda que depende de público, de estrada, de “fora de casa”, vamos nos apoiando nas nossas reservas, nos nossos amigos, famílias e casas. Como sempre aconteceu, já que o mundo como está organizado depende da desigualdade, os mais vulneráveis, além de serem os que mais sofrerão com a doença, também pagarão o preço no pós crise. Por isso, é tão importante estarmos atentos e organizados desde já, para que sejamos nós, quem iremos reconstruir as relações e repensarmos onde e como queremos viver. (Quem vem?)

*as citações em parênteses trazem trechos da letra de “Vírus”, canção composta por Destro e Noubar e que foi gravada pela Čao Laru com a participação (à distância) de André Abujamra. A faixa faz parte do projeto Singles Imprevistos. Assista ao clipe aqui.

Como vocês decidiram que era melhor lançar o disco mesmo neste momento?

A decisão de antecipar o lançamento do disco foi porque notamos que, com o isolamento social, o consumo de arte ficou 100% voltado para a internet. Não tem mais shows, espetáculos de dança, teatro, cinema, os museus estão fechados. Não acontece mais nada que não seja na rede. Então, toda a nossa agenda de lançamentos foi repensada pra alimentar esse ambiente virtual, incluindo o disco – aqui pensando ‘alimento’ como comida, uma ‘comida estética’, digamos assim. Nesse momento de isolamento, fica muito claro que esse alimento estético é o que deixa a nossa cabeça boa. Do mesmo jeito que a gente precisa de água pra ter um corpo saudável, a gente precisa de uma boa alimentação artística pra ficar com a mente saudável. A gente tinha uma novidade na mão – o disco -, e achamos que não precisávamos esperar um melhor momento. Entendemos que o ideal seria lançar o mais rápido possível. Tem uma série de colegas artistas fazendo algo parecido, e isso é uma das coisas mais legais desse momento triste: ver tantos artistas dispostos e trabalhando para alimentar essa rede.

Eduardo Lemos é jornalista, pesquisador musical e um dos criadores do Pequeno Imprevisto.

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