Até que um dia qualquer

Uma música é um sol, e nós é que giramos em torno dela.

É provável que, nos anos 90, eu e Ota tivéssemos ao menos um passatempo em comum, que envolvia abrir uma caixinha quadrada de acrílico, retirar de dentro dela um objeto redondo mais ou menos do tamanho de uma mão aberta e colocá-lo em algum aparelho de som capaz de realizar leitura óptica. Depois de apertar os botões necessários para a música tocar, voltávamos à caixinha de acrílico e tirávamos de suas costas o encarte. Nesse momento, as partículas sonoras já voavam através dos buraquinhos dos auto-falantes, e com nossos olhos colados no livrinho aberto, começava a viagem. 

É provável que, especialmente entre os anos de 1996 e 1997, a caixinha de acrílico que a gente mais abriu foi uma de cor amarela e azul cujo título aparecia em branco: “Os Paralamas do Sucesso 9 Luas”. 

Ota com 13 anos vivendo num apartamento de Pinheiros, em São Paulo, eu com 11, numa casa do Jardim Consolação, em Franca. Dois que não se conheciam, mas que a 400 quilômetros de distância repetiam as mesmas atitudes em relação a esse disco: escuta em looping (quando a música 12 termina, começa a música 1 de novo), necessidade de estar com o disco onde quer que fôssemos (na rua, na praia, na escola) e indefinição quanto às preferidas (em dias de sol, “Seja Você”, em dias de chuva, “Na Nossa Casa”, em dias de fúria, “Música Ligeira”, em dias de dúvidas, “Busca Vida”). 

E havia Um Pequeno Imprevisto. 

A última canção do disco. 

As canções que encerram um álbum tem um poder especial: é depois delas que vem o silêncio, e é no silêncio que enfim o álbum bate fundo. 

O que será que eles dois sentiam quando giravam em torno destes versos?

Eu quis querer o que o vento não leva
Pra que o vento só levasse o que eu não quero
Eu quis amar o que o tempo não muda
Pra que quem eu amo não mudasse nuncaEu quis prever o futuro, consertar o passado
Calculando os riscos
Bem devagar, ponderado
Perfeitamente equilibradoAté que num dia qualquer
Eu vi que alguma coisa mudara
Trocaram os nomes das ruas
E as pessoas tinham outras caras
No céu havia nove luas
E nunca mais encontrei minha casa
No céu havia nove luas
E nunca mais eu encontrei minha casa

 

 

 

 

 

 

 

 

O Ota de hoje me conta: 

Musicalmente eu curtia o arranjo, uma coisa tranquila. Levada de bateria com aro, violão de nylon e uma guitarra limpa com tremolo. Era época em que ouvia Paralamas como um estudo de produção, tentando entender todos os detalhes que aconteciam. Como era minha banda preferida, normal que eu partisse dali. A letra me prendia pela construção do apego x mudança inesperadas, construindo imagens na cabeça um adolescente tentando entender o mundo.

Já eu tenho apenas a memória da sensação. 

Um vento no peito, quase um frio na barriga: por que será? Olhando em retrospectiva, é como se a música me levasse para viajar, me colocando pra caminhar numa estrada grande demais, cujo final eu nunca enxergava. Mas eu ia mesmo assim, e sempre voltava mais forte. Acho que no fundo eu pensava: o Herbert, que é o Herbert, que fez esse disco todo que eu acabei de escutar, agora tá dizendo que no fundo ele não consegue controlar nada (as ruas mudaram de nome, as pessoas trocaram de cara e ele não viu!). E que é meio ridículo olhar pra gente tentando controlar tudo (querer o que o vento não leva? amar o que o tempo não muda? que trabalheira… ). Aquilo era uma lição que eu levaria a vida toda pra aprender. Ah, e tinha o final: o riff de piano e guitarra em fade-out, como num filme que se apaga devagarinho, abrindo espaço pra gente sentir tudo que aconteceu.

Essa música é um sol, e nós continuamos girando em torno dela.

Hoje, amigos e adultos, cada um vivendo de (e pra) música à seu modo, não sei se estamos perto de entender o que nos diz Um Pequeno Imprevisto. Uma coisa eu posso garantir: já caiu a nossa ficha de que, quando se trata da expressão artística, não adianta muito prever futuro, consertar passado, calcular riscos bem devagar e ponderado. Por mais dedicação, planejamento e suor que emprestemos à causa, nunca seremos capazes de controlar o destino de uma canção, de um disco, de um show, de uma turnê ou de uma carreira. 

Cada música é só o começo de um pequeno imprevisto. 

Eduardo Lemos, março de 2020

https://youtu.be/flU_coHUF_w
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