Um instrumento musical, uma história


Série tentará contar um pouco da história dos artistas do selo em sua relação com instrumentos musicais considerados importantes em suas trajetórias.


Sobre a série 

Contar um pouco da história de um artista em seu relacionamento e paixão com a música é também, eventualmente, falar sobre a importância e a função que algum instrumento musical em particular possa ter tido ao músico, para esse despertar à profissão como vocação.

Mais do que isso – na verdade, quase invariavelmente – ao conversamos com músicos (de instrumentistas profissionais a músicos amadores; de artistas focados em música popular a acadêmicos e pesquisadores da música erudita, teóricos e críticos de música), ao falarmos sobre um instrumento musical, conhecemos um pouco sobre a vida e as motivações de uma pessoa em cuja história a paixão pela música teve papel importante.

Histórias que, embora nasçam de uma paixão comum, têm sempre suas singularidades: a lembrança de um período feliz, e as relações especiais afetivas com  as pessoas importantes na vida; aquela guitarra herdada ou recebida de presente, que mudou tudo; o caminho para o aprendizado da música, e quando a pessoa passa a entender melhor seu modo de ser e estar no mundo, até enxergar a música como profissão; ou um período ou história marcante, em que sua vida passa a seguir outras trilhas e experiências.

Dos sonhos e motivações em seus projetos, ao instante em que passa a se enxergar como músico ou artista e seus futuros passos: todo esse processo encontra com frequência a companhia de algo que, não raro, o relegamos a um mero objeto: o instrumento, esta ferramenta de trabalho do músico.

Às vezes o instrumento se torna mais que companhia e chega a ser a personificação do artista. Seja para trabalho, seja para lazer, mas sempre como uma expressão e sentido.

O Pequeno Imprevisto lança, a partir de hoje, a série “Um instrumento, uma história”, na tentativa de contar as histórias dos artistas sob a ótica de algum instrumento especial, tão diferentes, diversos e singulares como podem ser; e com isso, contar também um pouco sobre as trajetórias dos músicos.  Como uma maneira de apresentá-los a ainda mais pessoas que, como nós, amam histórias e são amantes incondicionais da música –  e quase sempre encontram expressão e tem suas vidas melhor contadas a partir do aprendizado de um instrumento.

Episódio I – com Juliano Abramovay

A música, o violão: o universal da linguagem no subjetivo da expressão

 

Tomar a decisão de seguir o caminho profissional da música pode parecer fruto de uma vocação que surge de maneira quase espontânea. Pode soar como originada de um grande arrebatamento que te faz seguir a uma simples trilha, como um mapa em linha reta ou sem mudanças de rota na trajetória. Mas essa descoberta tem caminhos mais complexos que isso.

No caminho até concluir o mestrado em Música Otomana pela Codarts – conceituada Universidade – e começar a lecionar na Instituição e se tornar um pesquisador sobre a teoria e as ricas práticas musicais de diferentes povos do leste do mediterrâneo, Juliano Abramovay, 32, teve sempre, desde a infância, uma proximidade familiar com o mundo da arte e da música.

A mãe de Juliano, Silvia Bittencourt, estudou composição pela USP e foi professora universitária por muitos anos da EAD, Escola de Arte Dramática, (já há algumas décadas como uma unidade complementar do Departamento de Artes Cênicas da USP.)

Aos 5 anos, Juliano teve suas primeiras lições de piano, atividade que fez até os 7, e encontrou certa facilidade com as propostas de aprendizados no instrumento. Porém, talvez pela pouca idade, não houve aquele arrebatamento tão comum em crianças que começam a ter muito cedo os primeiros contatos com a música e com um instrumento musical. “Talvez pelas músicas e peças, ou a proposta de ensino que tinha na época, não me sentia tão estimulado para continuar”, lembra.

Foi aos 11 anos, idade mais comum em que se começa a tomar forma o interesse musical em pré-adolescentes e crianças de todo o mundo – muitas vezes apenas em busca de tocar o que começa a ouvir – que Juliano começou a ter aulas de violão com o violonista Guga Murray, (do Trio Vira- Lata, grupo de música instrumental brasileira que faz inserções no folclore e nas raízes e principais ritmos nacionais, aliado à incursões de improvisos calcados no jazz. Hoje, o professor é diretor de uma escola de música em Resende, no Rio de Janeiro, a Atrium). Ele lembra que toda a boa percepção pedagógica de Guga, em formas de incentivo ao aprendizado, o levaram a se dedicar cada vez mais ao violão.

“Eu comecei a me interessar por aprender na intenção de tocar o que eu ouvia de música popular na época, como qualquer adolescente, como Nirvana ou Cássia Eller”, lembra Juliano. Do período em que teve interesse em aprender às músicas populares que tocavam na rádio, a gradualmente se envolver mais nos estudos e iniciar sua incursão na riqueza histórica do violão brasileiro e da música clássica – carregando aí a necessidade do regime de dedicação maior que a música erudita costuma exigir com o instrumento em relação ao aprendizado de música pop ou rock – Juliano encontrou no violão seu primeiro arrebatamento para a música, sob a orientação de Murray.

 “A tradição do violão brasileiro é muito forte, é um país que tem essa cultura e complexidade com o instrumento, desde toda música popular, até a trabalhos como o de Villa Lobos. É de uma força e diversidade muito grande, mesmo em comparação ao cenário internacional”, observa.

Aos 21 anos, já inserido no universo musical como um então estudante de violão clássico e buscando uma formação no mundo da música, Juliano embarcou em uma viagem à Europa, com passagem pela Turquia, e ali começou a se interessar pela música do leste do mediterrâneo. Foi na mesma época em que descobriu a obra do músico turco Kudsi Erguner, conhecido por ser o principal instrumentista expoente da flauta ney, um dos instrumentos musicais caros à tradição turca.

A partir desta descoberta, abriu-se um mapa sobre o caminho, que culminou na criação de trabalhos coletivos conhecidos na música alternativa de São Paulo, como a Orkestra Bandida e o Graand Bazar.

 

 

Outras histórias

O violão foi a porta de entrada para seu interesse em outros instrumentos, como o alaúde (de importância capital para a música do Leste de Mediterrâneo e para a música Grega e Turca, focos dos estudos de Juliano) e a criação relativamente recente da idealização de Erkan Orgur nos anos 70, o violão sem trastes. Ainda assim, Juliano tem poucas dúvidas ao apontar ser o violão, tal qual o conhecemos, como o instrumento que define o início do seu despertar da música como vocação.

“O violão,  junto  com a sanfona, é o instrumento mais presente e popular em vários países do mundo, cada um com suas características próprias, mas é o que possui maior alcance na cultura dos países; é pensando nessa abrangência e diversidade que eu o escolheria ”, diz.

Neste sentido, Amazonon, disco que lançado em 2020 pelo Pequeno Imprevisto e marca sua estreia solo em álbum, pode ser entendido como a forma que o músico buscou expressar esta abrangência e diálogo entre tradições, trazendo também o Brasil para uma conversa entre culturas.

E este objetivo de diálogo é enfatizado por Juliano quando questionado sobre as possíveis tensões que podemos encontrar na linguagem musical – seja esta tensão na comparação aos padrões musicais de notações e afinações históricas relativamente recentes assumidos pelo Ocidente, ou na pesquisa de tradições de povos que  carregam traços comuns, mas que possuem desenvolvimentos próprios e contam um pouco da história de uma grande variedade de comunidades também envoltos em conflitos históricos.

“Eu acho que a música é uma linguagem universal. Não vejo como uma dificuldade de tradução. A música é algo que envolve muito essa relação com a subjetividade, e nesta relação é que possível criar um diálogo entre as pessoas, e que elas possam entender essa universalidade.”

Poucas pessoas que amam a música poderiam dizer não terem sentido alguma vez esse sentimento de universalidade no contato com a arte.

Alfredo Araújo

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