sobre devoção e música

 


Carime Elmor em busca de descobrir o outro e sua criação


 

Rafa Castro senta à cadeira de cor amarela da sala de minha antiga casa. É uma tarde com um volume alto de ruídos lá fora, sirene, carros que quase se chocam (se não fosse pelo rastro de uma buzina), chuva intercalada com feixes súbitos de sol, como normalmente se organiza o tempo em São Paulo. Sua voz é calma e apazigua, o som da janela dá lugar às demos que começamos a ouvir. Eu, sentada no outro lado da mesa branca, estou vibrando com a possibilidade de começar a trabalhar com esse artista no lançamento de seu disco: Teletransportar. 

 

Foto e Capa: Lorena Dini

 

Me lembro que havia colocado um café para passar, e àquela altura já devia estar pronto. Continuo ouvindo-o (pela voz da fala e da música que se sobrepõem) enquanto me desloco para encher três quartos de duas xícaras. Nós dois viemos da mesma cidade, Juiz de Fora, em Minas Gerais, mas nosso encontro mais próximo ocorreu aqui, onde todo mundo que é de fora busca refúgio no mesmo sotaque.

Em um gesto de amizade, nos aproximamos quando ele e sua companheira, Lorena Dini, me convidaram a frequentar os saraus e vinhos que organizam esporadicamente no estúdio dela, uma fotógrafa que trabalha com editoriais e retratos, principalmente de moda. Em uma destas noites, sobre uma mesa comprida de madeira, com uns cinco metros mais ou menos, e pelo menos vinte pessoas a rodeando, comendo, bebendo, viradas de lado, de costas, ou em pé, eu e Rafa falávamos sobre jornalismo especializado em música. Comentamos sobre o papel de uma boa entrevista, quando o repórter consegue despertar o outro a partir da escuta.

Aquela noite abriu um caminho para que continuássemos a conversar. Rafa Castro sugeriu que devíamos marcar uma reunião-café, e foi adiante, contou que lançaria seu quarto disco no ano seguinte. Isso foi em meados de 2019. Ao menos é o que me recordo agora.

Volto à esta memória para explicar como chegamos à este café, o segundo para falar de seu disco. Peço para ligar o gravador, e o posiciono no meio da mesa da sala, em alguma brechinha entre a broa, o pão de queijo, o queijo fresco de minas, os papéis, as canetas, e as marcas das xícaras. Pergunto ao Rafa sobre a relação entre suas recentes viagens para o estado do Pará e do Amazonas e suas novas composições. A gente coloca “Marajó” para tocar, aquela versão de registro, pois é ali o ponto de partida do disco. Ele e Lorena estavam sozinhos na Ilha do Marajó, quando um pescador o avistou e indagou o que aqueles dois mineiros faziam ali. Se aproximaram, e foi assim que o homem pegou um graveto e, enquanto contava que ficava onze meses no mar, desenhou na areia sua rota de pesca. 

Aquele momento, da ida do pescador para as águas, é simbólico para seu novo disco. Ele e sua companheira ficaram imaginando aquele homem partindo para o oceano, sem saber ao certo se voltaria. Escreveram, juntos, os versos da primeira música de Teletransportar. 

 

Como dever de casa, Rafa Castro tinha me sugerido a leitura do conto “A Terceira Margem do Rio”, de João Guimarães Rosa. Eu li dias antes de recebê-lo para a reunião. As conexões entre o autor mineiro e o atual compositor estavam claras. Em “Marajó”, Rafa era o filho vendo o pai pegando sua canoa e indo para o mar, mas também era ele tomando o lugar do pai, encarando as águas, e se entregando à uma completa transformação. Para compreender o projeto do disco, me interessa não apenas a realidade material que o circunda, mas a que está dentro dele ao iniciar o processo de criação. 

Aprendi, com o jornalismo e a literatura, que qualquer pessoa quando vista de perto revela uma peculiaridade. 

Rafa Castro tem 31 anos e há mais de dez é profissional na música. Aos 13, foi convidado por um professor de sua escola a tornar-se solista de orquestra, já tocava o violão, onde gosta de compor até hoje, mas aos 19 anos passou por uma catarse ao descobrir que conseguia reproduzir cada pedacinho de sentimento, em som, através do piano. Esse tornou seu instrumento. É um obsessivo pelas teclas intercaladas em preto e branco. Só na sala de sua casa, tem dois. Um piano de armário e um piano elétrico. Antes de escrever canções, já se dedicava à compor trilhas-sonora para cinema, e temas de música instrumental. 

No último ano, algumas características intrínsecas a ele, que estavam adormecidas, renasceram. A religiosidade foi uma delas. Sua ligação com o sobrenatural se dá a partir da música, sim, mas seu contato com as florestas primárias, as nascentes dos rios e a convivência nas comunidades dos sertões do norte do Brasil, reconectaram-o a um sentimento de pertencimento em relação à natureza. Uma espiritualidade que tem a ver com o respeito aos nossos antepassados, que são os rios, as matas e toda força que vem destas paisagens. Outra personalidade posta para fora foi sua poesia. Começou a escrever impulsivamente e percebeu que era a hora de cantar suas letras.

Ficamos por cerca de duas horas elaborando sobre as músicas e criando uma linha de sentido que une as faixas. Nos despedimos para nos reencontrar cinco dias depois, já em um estúdio, na zona sul de São Paulo. Era terça-feira de carnaval, 25 de fevereiro, uma chuva tremenda tava vindo, mas lá de dentro, isolados de qualquer outro som, ouvia apenas uma partezinha de seu disco sendo gravada ao vivo, tudo com equipamentos analógicos e microfones antigos dos anos 1950 e 60.  Essa ida ao momento da captação, me fez lembrar de uma conversa que tive anos antes, com outro músico, que me contou a relação dos desenhos das partituras com os lugares de onde elas vêm. Ele explicou que as melodias mineiras dão mais saltos, acompanham as montanhas, com altos e baixos marcados. Enquanto a Bossa Nova carioca é mais horizontal, como um oceano, um horizonte que se vê planificado quando se olha para o mar. Ainda que a música de Rafa seja bem jazz-mineira, há uma evocação aos oceanos, capaz de sobrepor Minas Gerais à uma cartografia planificada. Sua voz calma é capaz de segurar uma só nota na ponta da língua por vários segundos. E por meio de sua mente organizada, coloca para fora um pensamento completamente horizontal. Como se falasse, e as palavras ocupassem uma a uma um papel cheio de um texto, sem nenhuma rasura. Expondo camadas de suas experiências humanas, que podem atravessar muitas outras.

Saí do estúdio sabendo que em um mês o videoclipe “Cheiro de Mar” seria lançado. Não dava para prever que seria em plena crise do coronavírus. Ainda bem, que logo que ficou pronto, um dia antes de entrarmos em quarentena, conseguimos nos reunir, agora na sala da casa deles (de Rafa Castro e Lorena), para vermos o vídeo, dirigido por ela. Ficou em minha cabeça algo que ela disse naquela manhã. “O disco é líquido”. Todo o resto está exposto, em imagem e música:

https://youtu.be/EShTsXcGvZE

E,
Por isso,
Não sei bem
Como encerrar
Um texto
Sobre uma experiência
Ainda em movimento
Crescente
Só sei que li no livro “Cravos”, de Julia Wähmann,
Bem no dia do lançamento do disco,
Algo que me chamou a atenção.
Sabendo que coincidências não existem, cito:

“_ É sempre virose, maresia ou mau contato.
  _ Ou saudade”

Carime Elmor é jornalista e toca bateria despretensiosamente na Olympia Tennis Club.

carimelmor@gmail.com
carimeelmor.com

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